A qualidade da água não interfere apenas na paisagem e na experiência de quem vive próximo ao mar, rios ou lagos. Ela também pode aparecer no preço do imóvel. Uma meta-análise da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA, reuniu 36 estudos e 656 observações sobre a relação entre qualidade da água e mercado imobiliário residencial. O levantamento aponta que um aumento de 1% na clareza da água está associado a uma alta média de 0,105% no valor dos imóveis localizados de frente para o recurso hídrico. Nas propriedades situadas em até 500 metros, mas sem frente direta para a água, a valorização média estimada foi de 0,026%.
A pesquisa ajuda a dimensionar economicamente um atributo que costuma aparecer de forma subjetiva nas negociações: a qualidade ambiental do entorno. Mais do que ter vista ou proximidade com a praia, a conservação da água, da vegetação e da paisagem pode influenciar a atratividade e a percepção de valor de uma propriedade.
No Brasil, a Interpraias, em Balneário Camboriú (SC), reúne características que aproximam a região desse debate. Formada pelas praias Laranjeiras, Taquaras, Taquarinhas, Pinho, Estaleiro e Estaleirinho, a área combina natureza preservada, baixa densidade de ocupação, oferta restrita de imóveis e presença crescente de propriedades de alto padrão.
Além disso, três dessas praias — Estaleirinho, Estaleiro e Taquaras — receberam a certificação internacional Bandeira Azul na temporada 2025/2026 e foram recomendadas para a etapa internacional da temporada 2026/2027, cujo resultado está previsto para outubro.
Para Maurício Girolamo, CEO da J. Maurício, imobiliária com atuação focada nessa região, a preservação ambiental deixou de ser apenas um diferencial paisagístico e passou a integrar a análise patrimonial de quem procura um imóvel no litoral. “Em uma região como a Interpraias, a natureza não está separada do imóvel. Ela faz parte da experiência de morar, da qualidade de vida e da percepção de valor da propriedade. Quanto mais preservado estiver o entorno, maior tende a ser o interesse por imóveis que ofereçam essa relação direta com o mar e com a vegetação”, afirma.
Preservação e ofertaA Interpraias está inserida na Área de Proteção Ambiental Costa Brava, criada para conciliar a ocupação urbana com a preservação dos recursos naturais. As regras ambientais e urbanísticas limitam intervenções, estabelecem parâmetros de uso e exigem atenção redobrada à regularidade dos imóveis.
Essas características também restringem a oferta de novas propriedades em determinadas áreas. Na avaliação da J. Maurício, a combinação entre menor disponibilidade, baixa densidade e demanda por imóveis próximos à natureza contribui para sustentar a valorização do mercado de alto padrão. Há casos de empreendimentos no local que chegam a R$ 100 mil/m².
Girolamo explica ainda que a negociação em uma área ambientalmente protegida exige conhecimento específico. “Um imóvel pode ter uma localização excepcional, mas a decisão precisa considerar todos os aspectos jurídicos, ambientais e urbanísticos. A valorização sustentável depende tanto da preservação do entorno quanto da segurança da negociação”, acrescenta.