A cidade começa no térreo: como os novos empreendimentos estão mudando a relação com as ruas

Fachadas ativas aproximam edifícios do espaço público, estimulam a circulação de pedestres e criam novas áreas de convivência

Integrar a arquitetura privada ao espaço público é uma das principais tendências do desenvolvimento urbano contemporâneo. A aplicação do conceito de fachada ativa — que se caracteriza pela destinação do térreo dos edifícios a atividades comerciais, serviços ou áreas de convivência integradas à calçada — vem transformando a dinâmica das cidades e contribuindo para tornar as ruas mais movimentadas, acolhedoras e seguras. Esse modelo acompanha uma discussão que ganhou força nas cidades brasileiras: como criar bairros mais caminháveis, seguros e dinâmicos, reduzindo a dependência do automóvel e aproximando as pessoas do comércio, dos serviços e dos espaços de lazer.


Embora o conceito tenha se tornado mais presente nos projetos atuais, seus princípios não são novos. “Em Curitiba, por exemplo, soluções semelhantes já estavam presentes no chamado Plano Massa, adotado na década de 1970, no contexto da implantação dos setores estruturais e do sistema trinário da cidade. A aplicação da fachada ativa promove benefícios como o aumento da circulação de pedestres, a melhoria da segurança pública pela ocupação constante das vias, o incentivo à circulação a pé ou de bicicleta e o fortalecimento do conceito de ‘cidade de 15 minutos’”, explica a arquiteta e urbanista do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), Maria Cristina Santana.


A regulamentação atual da fachada ativa em Curitiba baseia-se nas diretrizes do Plano Diretor de 2015 e na Lei de Zoneamento, Uso e Ocupação do Solo de 2019. A legislação estabelece a fachada ativa como uma estratégia para estimular o uso misto, aproximar o comércio e os serviços dos pedestres e qualificar o espaço público. A aplicação dos incentivos prioriza regiões estratégicas para o desenvolvimento urbano, como os Eixos Estruturantes e as zonas de uso misto, com o objetivo de concentrar moradia, comércio e serviços em locais dotados de infraestrutura e transporte.


Quando o empreendimento passa a contribuir para a cidade


Na prática, uma fachada ativa pode contemplar lojas, restaurantes, cafés, serviços, jardins e áreas de convivência diretamente conectados à calçada. O objetivo é criar uma transição menos rígida entre o espaço privado e o público, estimulando diferentes usos no decorrer do dia. A mudança também representa uma nova maneira de enxergar o próprio empreendimento. Em vez de funcionar como uma estrutura isolada, o edifício passa a considerar a dinâmica de seu entorno e as formas pelas quais pode contribuir para o bairro.

É essa lógica que a GT Building aplica em projetos como o Lange,Turin, no Batel, em Curitiba. Com lojas e uma praça aberta ao público, o empreendimento incorpora o conceito de gentileza urbana, criando espaços de transição e convivência que ampliam sua conexão com a cidade. Um dos principais elementos é a Praça Lange,Turin, aberta para a rua e com projeto paisagístico assinado por Benedito Abbud. O espaço reúne vegetação nativa da Mata Atlântica, uma araucária central e esculturas do renomado artista paranaense João Turin, criando uma espécie de galeria a céu aberto.

A proposta é que a praça não funcione apenas como área de passagem para os moradores, mas também estabeleça uma relação mais generosa com quem circula pela região. “Entendemos que um empreendimento não termina na porta de entrada. Ele faz parte de um bairro e interfere na experiência de quem vive e circula naquele entorno. Por isso, buscamos criar projetos que tenham uma relação mais aberta com a cidade, oferecendo espaços que contribuam para a convivência e para a qualidade urbana”, afirma o arquiteto da GT Building, Fábio de Lima.


Outro exemplo é o A. Andersen, também em Curitiba. No térreo, um restaurante reforça a relação com a cidade. O segundo e o terceiro pavimentos abrigam 17 salas comerciais. A partir do quarto pavimento, estão distribuídos os 197 apartamentos de alto padrão, com metragens entre 20 e 35 metros quadrados, concebidos para atender diferentes perfis de uso — desde estadias curtas ou médias até a moradia permanente e a locação tradicional ou por temporada
“Quando um empreendimento oferece uma boa relação com a cidade, ele amplia a experiência de morar naquele endereço. A combinação entre localização, conveniência, qualidade arquitetônica e espaços urbanos qualificados pode aumentar a atratividade do imóvel e contribuir para a percepção de valor ao longo do tempo”, completa Fábio de Lima, arquiteto da GT Building.

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