Por Evandro Rodrigues, CEO da BE, A Moradia do Futuro
O mercado imobiliário brasileiro vive um momento de transformação técnica. Certificações internacionais de sustentabilidade e bem-estar, antes restritas a grandes corporações, começam a moldar a forma como edifícios residenciais são projetados, construídos e operados no país.
Duas das principais referências nesse movimento são a certificação WELL, do International WELL Building Institute, focada em saúde e bem-estar dos ocupantes, e a certificação GBC Condomínio, desenvolvida pelo Green Building Council Brasil, que avalia o desempenho sustentável do edifício como sistema integrado.
A adoção dessas certificações não representa apenas um selo ao final do processo. Ela redefine a lógica de planejamento desde a concepção do projeto, estabelecendo critérios mensuráveis e verificáveis que impactam decisões de arquitetura, engenharia e execução.
Na prática, isso significa que a arquitetura do edifício já nasce preparada para comportar sistemas de ventilação mecânica e climatização em áreas comuns, com infraestrutura dimensionada para garantir qualidade do ar e conforto térmico. Elementos aparentemente simples, como capachos e grelhas nas entradas com dimensões mínimas de três metros, passam a integrar o projeto como estratégia física para reduzir a entrada de poluentes.
A iluminação natural e a ventilação cruzada deixam de ser apenas conceitos arquitetônicos desejáveis e se tornam requisitos técnicos, com diretrizes claras de área envidraçada mínima por ambiente e exigência de janelas operáveis em grande parte dos espaços. Isso influencia diretamente o desenho das fachadas, o layout interno e a distribuição dos usos dentro do edifício.
Um dos avanços mais significativos trazidos pelas certificações está no controle de compostos orgânicos voláteis (COV) presentes em adesivos, selantes e outros insumos aplicados em ambientes internos. Esses compostos, quando em concentrações elevadas, podem comprometer a qualidade do ar e a saúde dos ocupantes. As certificações estabelecem limites técnicos e critérios de escolha que elevam o padrão de segurança dos materiais especificados.
O conforto acústico e térmico também passa a ser tratado como requisito técnico, com níveis de desempenho definidos e soluções construtivas específicas para isolamento de divisórias e controle de ruído entre ambientes.
Eficiência como infraestrutura, não como improviso
Outro aspecto estrutural está na medição e gestão de recursos. Hidrômetros individualizados por unidade permitem o controle preciso do consumo de água potável. Infraestrutura para energias renováveis e preparação para carregamento de veículos elétricos deixam de ser adaptações futuras e passam a integrar o projeto desde o início, com capacidade mínima definida e integração a sistemas de supervisão predial.
Durante a execução, o processo ganha camadas adicionais de controle: checklists por fase, testes de partida de sistemas, documentação operacional detalhada e acompanhamento de desempenho antes da entrega. Tudo isso é registrado, validado e preparado para auditoria pela certificadora após a conclusão da obra.
Impacto no produto final e no mercado
O resultado dessa abordagem é um edifício com desempenho mensurável em aspectos como qualidade do ar, iluminação, conforto térmico e acústico, eficiência hídrica e energética, e adequação de materiais ao ambiente interno. Mais do que atributos subjetivos de qualidade, essas características passam a ser verificáveis, comparáveis e auditáveis.
Para os moradores, isso se traduz em conforto e qualidade de vida orientados por critérios técnicos de desempenho real. Para investidores, representa um ativo com menor risco de obsolescência ao longo do tempo, alinhado a padrões reconhecidos internacionalmente. Para o setor como um todo, significa a elevação do nível técnico e a redução da subjetividade: performance deixa de ser promessa e vira critério objetivo.
Um movimento em expansão
Embora ainda represente uma fatia pequena do mercado, a presença crescente de empreendimentos residenciais em fase de pré-certificação no Brasil indica uma mudança de cultura no setor. O que antes era visto como diferencial de nicho começa a se consolidar como referência de padrão construtivo, capaz de influenciar não apenas projetos individuais, mas a forma como o mercado define e comunica qualidade.
A transformação está em curso. E ela não vem apenas de discursos sobre sustentabilidade, mas de decisões técnicas, critérios mensuráveis e processos verificáveis que alteram a forma de construir edifícios no país.
