Como a neuroarquitetura e o urbanismo humanocêntrico estão moldando o futuro das cidades no Brasil

Conceito que molda bairros planejados foca na neuroarquitetura, na diversidade social e no fim dos deslocamentos estressantes para resgatar o senso de comunidade perdido nas capitais

A pandemia de 2020 disparou uma corrida migratória em direção ao interior do país, inicialmente motivada pela busca por espaço. Passados alguns anos, o mercado imobiliário e a sociologia urbana detectam que a intenção mudou. O desejo atual do consumidor de alto padrão não é apenas por metragens generosas, mas por um estilo de vida que os especialistas chamam de urbanismo humanocêntrico, em que cidades são desenhadas com foco na saúde mental, no convívio comunitário espontâneo e no fim do trânsito como rotina.

Nesse cenário, um fenômeno em Guarapuava, no centro do Paraná, vem chamando a atenção de urbanistas e virando referência nacional de comportamento. A Cidade dos Lagos, um bairro planejado com 3 milhões de metros quadrados, foi idealizada sob o conceito de que a arquitetura das cidades molda a biologia e as relações de seus habitantes. Primeiro bairro do Brasil a receber o selo internacional LEED Gold for Communities, o local propõe o resgate de um lifestyle que parecia extinto nas capitais: a vida de bairro, onde se faz tudo a pé, mas com a conveniência tecnológica de uma metrópole conectada.

O fim da “cidade-dormitório” e a neuroarquitetura do cotidiano

Passar duas horas diárias no trânsito para se deslocar entre a casa, o trabalho e a escola dos filhos tornou-se um dos maiores fatores de estresse da vida moderna. Ao aplicar o conceito internacional da “Cidade de 15 Minutos”, o planejamento do bairro paranaense eliminou essa fricção. Em um raio de caminhada ativa, o morador encontra hospitais de alta complexidade, universidades, parques tecnológicos, shopping e hotelaria.

“Quando desenhamos uma calçada larga, ciclovias integradas e valorizamos a biofilia com mais de 170 mil m² de espelhos d’água, não estamos fazendo apenas paisagismo. Estamos fazendo neuroarquitetura”, explica Micael Paganini, diretor do departamento de planejamento da Cidade dos Lagos. “O entorno urbano envia comandos constantes para o nosso cérebro. Se o ambiente é hostil e cinza, ele gera cortisol e alerta. Se ele é aberto, verde e seguro, ele induz à desaceleração e ao convívio. O luxo contemporâneo é poder caminhar à noite sem medo e ver os filhos crescendo com autonomia na rua”, ressalta Paganini.

O indicador de contato com a natureza é um dos mais robustos do ecossistema: o projeto prevê entregar cerca de 30m² de área verde por habitante após a conclusão de sua expansão, quase o triplo do mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O bairro conta ainda com 9,5 quilômetros de ciclovias e está posicionado ao lado do Parque Municipal das Araucárias, o maior parque dessa espécie em área urbana do mundo.

Inteligência Social contra as “Bolhas” Urbanas

Ao contrário de muitos condomínios fechados tradicionais que ganharam força nas últimas décadas e que criaram “bolhas” de isolamento socioeconômico, o modelo adotado na Cidade dos Lagos seguiu uma premissa de inteligência social. O plano diretor determinou que o bairro fosse aberto e integrado, e os primeiros empreendimentos residenciais foram voltados ao perfil dos imóveis que fazem parte de programas de habitação popular, como o Minha Casa, Minha Vida.

“A verdadeira sustentabilidade de uma comunidade passa pela convivência e pela quebra da segregação urbana”, pontua Paganini. “Um bairro inteligente não pode ser excludente. O equilíbrio e a interação entre diferentes classes sociais geram uma dinâmica de mobilidade social e um ambiente muito mais rico e saudável para criar filhos. As pessoas compartilham os mesmos parques, as mesmas ciclovias e a mesma segurança monitorada. Isso reconstrói o tecido social e o senso de cidadania”.

Esse ecossistema humanocêntrico explica por que os ativos imobiliários na região registraram uma valorização de 22% nos últimos dois anos, superando a média nacional. O mercado percebeu que o consumidor não está mais comprando apenas um imóvel; ele está investindo em uma nova contabilidade do tempo e em uma rotina onde o bem-estar e o estilo de vida comunitário são os verdadeiros patrimônios.

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