Construir acima dos 500 metros: o que o Senna Tower antecipa sobre o futuro das cidades brasileiras

Empreendimento em Balneário Camboriú leva engenharia, indústria e planejamento a uma nova escala e transforma a cidade catarinense em laboratório para os desafios da verticalização
 

Antes mesmo de começar a avançar verticalmente no skyline de Balneário Camboriú, a construção do Senna Tower – maior prédio residencial do mundo – já elevou o nível dos números: foram 798 estacas, mais de 12 mil metros cúbicos de concreto e uma estrutura de fundação que, somada, alcança cerca de 30 quilômetros.
 

A dimensão do que acontece abaixo do solo é uma medida do desafio que virá acima dele. Com mais de 550 metros de altura previstos, o projeto da FG Empreendimentos leva a engenharia e a construção brasileiras a uma escala inédita e ajuda a antecipar uma questão que tende a ganhar espaço nas próximas décadas: como construir — e planejar — cidades que crescem cada vez mais na vertical?
 

A discussão ocorre em um momento em que municípios brasileiros revisam planos diretores e regras de uso e ocupação do solo para decidir onde e de que forma poderão crescer nas próximas décadas. Em cidades onde a expansão territorial encontra limites físicos, ambientais ou de infraestrutura, o adensamento de áreas já urbanizadas surge como uma das alternativas para acomodar novos moradores sem reproduzir indefinidamente o modelo de crescimento horizontal.
 

É nesse contexto que a verticalização deixa de ser apenas uma tendência arquitetônica ou imobiliária e passa a integrar uma discussão mais ampla sobre eficiência urbana. Os chamados supertalls — edifícios com mais de 300 metros de altura, como o próprio Senna Tower — são a expressão mais extrema desse movimento.
 

Quando bem planejado, o adensamento pode favorecer o aproveitamento de redes de água, saneamento, energia, vias e equipamentos já implantados, em vez de exigir que a cidade avance continuamente sobre novas áreas. Também cria condições para aproximar moradores de comércio, serviços, empregos e sistemas de transporte, fortalecendo economias locais e reduzindo a pressão pela expansão da mancha urbana. O ganho, porém, não está simplesmente em construir mais alto: depende da capacidade de fazer densidade, infraestrutura e planejamento avançarem juntos.
 

Um laboratório a 550 metros
 

Essa relação se torna especialmente relevante em Balneário Camboriú. Com território limitado e uma das verticalizações mais intensas do país, a cidade passou a concentrar sucessivas gerações de edifícios altos e a lidar, em escala real, com os desafios associados ao crescimento em densidade. Empreendimentos como Infinity Coast e One Tower ampliaram o conhecimento local sobre estruturas esbeltas, fundações profundas, comportamento ao vento, métodos construtivos e desempenho de edifícios em operação. O Senna Tower leva essa trajetória a uma dimensão inédita.

Quando um edifício ultrapassa a barreira dos 500 metros, não basta ampliar as soluções utilizadas em construções convencionais. Vento, dinâmica estrutural, fundações, materiais, transporte vertical, bombeamento de concreto, logística e sequência construtiva passam a exigir novas respostas e, sobretudo, precisam ser pensados como partes de um mesmo sistema.
 

No Senna Tower, essa complexidade já levou à adoção de equipamentos inéditos no país, materiais de alto desempenho e sistemas avançados de monitoramento. O projeto prevê concretos desenvolvidos para diferentes exigências estruturais, aço CA70 S, com resistência superior à do CA50 convencional, modelagem 4D aplicada ao planejamento da obra e um Tuned Mass Damper (TMD), tecnologia destinada a reduzir as oscilações da torre provocadas principalmente pela ação do vento. A aerodinâmica do edifício também foi submetida a estudos avançados em túnel de vento.
 

É essa combinação de desafios que transforma a obra em um ambiente de desenvolvimento e validação de soluções para a construção em grande altura.
 

“Projetos extremos aceleram o desenvolvimento de soluções que depois deixam de pertencer àquela obra. O conhecimento fica com engenheiros, projetistas, fornecedores, fabricantes e equipes de execução e passa a estar disponível para os próximos empreendimentos. O Senna Tower nos coloca diante de desafios inéditos no Brasil, mas o legado não será apenas a torre: será também a capacidade técnica construída para viabilizá-la”, afirma Stéphane Domeneghini, diretora executiva da Talls Solutions e engenheira responsável pelo Senna Tower.
 

O que um supertall pode ensinar às cidades
 

O impacto dessa nova escala não fica restrito ao canteiro. As exigências do Senna Tower mobilizam projetistas, fabricantes, fornecedores e empresas de tecnologia em torno de materiais, equipamentos e processos ainda pouco usuais no mercado nacional, além de novos métodos construtivos que demandam níveis maiores de integração, precisão e controle.
 

O projeto também aproxima a engenharia nacional de algumas das principais referências mundiais em edifícios altos. Especialistas globais em áreas como geotecnia, comportamento ao vento e dinâmica estrutural participam do desenvolvimento da torre, enquanto soluções são adaptadas e validadas para materiais, normas, fornecedores e condições de execução brasileiras. Essa troca contribui para elevar o patamar técnico da cadeia nacional e ampliar sua capacidade de responder a projetos de diferentes escalas e níveis de complexidade.
 

A discussão, porém, vai além da engenharia do edifício. À medida que uma mesma área urbana passa a concentrar mais moradores e atividades, crescem também as exigências sobre mobilidade, saneamento, energia, serviços e espaços públicos. É nesse ponto que a experiência de um projeto extremo como o Senna Tower se conecta a uma questão mais ampla: como preparar as cidades para crescer em densidade.
 

“Assim como um supertall exige dimensionar sistemas, simular cenários e antecipar gargalos antes da execução, cidades mais densas também dependem de planejamento capaz de relacionar ocupação do território à capacidade da infraestrutura. Não acredito que o debate seja simplesmente construir cidades mais altas: a questão é como usar melhor o espaço urbano e como preparar infraestrutura, engenharia e planejamento para cidades mais densas e inteligentes”, finaliza Stéphane.

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