Mesmo em um cenário de juros elevados, segmento premium segue crescendo acima da média do setor, impulsionado pela busca por ativos patrimoniais, escassez de produto e avanço da demanda estrangeira no país
O mercado imobiliário de luxo brasileiro vem consolidando um movimento que, até pouco tempo atrás, parecia restrito a polos internacionais: o crescimento consistente do segmento premium mesmo em um ambiente econômico mais desafiador.
Dados recentes da BRAIN Inteligência Estratégica, consultoria especializada em pesquisas e inteligência de mercado para o setor imobiliário, mostram que o Sudeste segue liderando o desempenho do alto padrão no país. No levantamento referente ao segundo trimestre de 2025, os imóveis de luxo registraram crescimento de 5,6% nos lançamentos da região, mantendo o segmento em patamares historicamente elevados mesmo após os fortes avanços observados ao longo do último ano.
A leitura do setor é que o comprador premium hoje responde menos às oscilações do crédito tradicional e mais a fatores como proteção patrimonial, diversificação de investimentos e busca por ativos escassos em regiões consolidadas.
Na prática, o movimento já começa a se refletir nas operações focadas no segmento de altíssimo padrão.
É o caso da Judice & Araujo, imobiliária especializada no mercado premium do Rio de Janeiro, que encerrou 2025 com R$ 508 milhões em volume anual de vendas, um avanço de 36% em relação ao ano anterior e mais que o dobro do registrado em 2023.
Atualmente, a companhia opera um portfólio avaliado em R$ 12,5 bilhões, com 2.081 imóveis disponíveis para venda. Desse total, 311 propriedades estão acima de R$ 10 milhões, 119 superam R$ 20 milhões e 17 ultrapassam a marca de R$ 50 milhões.
O comportamento do segmento nas regiões mais valorizadas da cidade também ajuda a ilustrar a consolidação do ultra luxo carioca. Segundo dados da operação, o valor médio do metro quadrado já gira em torno de R$ 33 mil no Leblon e R$ 36 mil em Ipanema, bairros marcados pela combinação entre escassez de produto, localização privilegiada e perfil patrimonial dos compradores.
Em São Paulo, a Jardins & Co observa um movimento semelhante, mas com uma dinâmica cada vez mais conectada à internacionalização do mercado brasileiro.
A empresa mantém atualmente um portfólio ativo de aproximadamente R$ 28 bilhões e cerca de 4 mil imóveis, registrando crescimento anual próximo de 30%. Entre os ativos disponíveis, mais de 400 imóveis ultrapassam R$ 10 milhões, enquanto outros 20 superam R$ 50 milhões. A maior transação já realizada pela companhia chegou a R$ 80 milhões.
Nos últimos anos, a operação passou a observar um aumento consistente da procura internacional por imóveis brasileiros de alto padrão, especialmente por compradores portugueses e americanos. Segundo a empresa, Portugal e Estados Unidos já aparecem entre os mercados mais recorrentes de origem desses investidores.
O movimento acompanha uma tendência global observada no real estate de luxo: investidores internacionais têm ampliado o interesse por destinos que ainda oferecem ativos premium com valores mais competitivos em relação aos grandes mercados globais, além de câmbio favorável e potencial de valorização patrimonial.
Um dos sinais mais claros dessa nova fase do mercado brasileiro é justamente o avanço da internacionalização das operações locais.
Em abril deste ano, Judice & Araujo e Jardins & Co passaram a integrar a Forbes Global Properties, plataforma internacional de imóveis de luxo ligada à Forbes e presente em alguns dos principais mercados premium do mundo.
A entrada das duas empresas brasileiras na rede acontece em um momento em que o país começa a atrair atenção crescente de compradores estrangeiros. Mais do que ampliar a exposição internacional dos imóveis brasileiros, a plataforma deve funcionar como um canal estratégico de conexão entre o segmento premium nacional e uma base global de investidores de alta renda.
Hoje, a Forbes Global Properties reúne empresas parceiras em mercados como Estados Unidos, França, Reino Unido, Emirados Árabes e Portugal, ampliando a circulação internacional de ativos imobiliários de alto padrão.
Para a Jardins & Co, a expectativa é triplicar a operação internacional nos próximos anos, impulsionada pelo aumento da demanda estrangeira e pela maior visibilidade global do mercado brasileiro. Já a Judice & Araujo observa um avanço consistente do interesse internacional por ativos patrimoniais no Rio de Janeiro, especialmente em bairros com oferta restrita e alta liquidez histórica, como Leblon e Ipanema.
Paralelamente, as empresas observam uma transformação mais profunda no comportamento do consumidor de alto padrão. Segundo as operações, o luxo imobiliário passa por uma mudança estrutural, deixando de ser associado apenas à metragem ou localização e incorporando atributos ligados à experiência, hospitalidade, bem-estar e lifestyle.
Esse novo perfil de comprador ajuda a explicar por que o segmento premium continua operando em uma lógica diferente do restante do setor, mesmo em um contexto macroeconômico mais pressionado.
Mais do que uma tendência pontual, o movimento reforça uma percepção crescente entre players da indústria: o mercado imobiliário de luxo brasileiro entrou em uma nova fase de maturidade — mais globalizada, patrimonial e menos dependente dos ciclos tradicionais do crédito imobiliário.
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