Neste ano, a inadimplência avançou no Brasil dentro das famílias, das empresas e do governo, em um cenário de juros elevados e crédito mais caro. No mercado condominial, os sinais também são de piora: 12,5% das taxas condominiais ficaram mais de 30 dias sem pagamento no primeiro semestre de 2026, segundo um levantamento da uCondo, empresa de tecnologia para gestão de condomínios. Esse é o maior índice registrado na série monitorada desde 2022.
De acordo com a base da uCondo, a inadimplência da taxa condominial acima de 30 dias já vinha em uma trajetória de alta anual. Depois de registrar 9,72% no primeiro semestre de 2022 e 8,65% no segundo, o indicador passou a 9,14% no primeiro semestre de 2023 e 9,92% no segundo. Em 2024, ficou em 9,99% e 9,83%, respectivamente. A partir de 2025, o percentual subiu para 11,95% no primeiro semestre e 11,66% no segundo.
O critério adotado pela uCondo retira da estatística atrasos pontuais. O débito só passa a ser contabilizado no indicador quando ultrapassa 30 dias de atraso, trazendo um panorama mais acurado da realidade. Léo Mack, cofundador e diretor de operações da uCondo, explica que “o corte procura identificar uma situação mais persistente do que um simples esquecimento ou atraso operacional”.

Fundada em 2015, a uCondo atende, atualmente, 7 mil condomínios e tem mais de 700 mil usuários em sua plataforma, que reúne gestão financeira, comunicação e outras rotinas condominiais. A empresa já superou R$ 800 milhões em transações financeiras e projeta alcançar R$ 1 bilhão em movimentações neste ano.
Norte lidera inadimplência entre as regiões
O recorte regional mostra que o Norte registra o maior índice de inadimplência, com 19,09%. Na sequência aparecem o Nordeste, com 12,71%, e o Sudeste, com 12,28%. Já o Sul apresenta taxa de 11,61%, enquanto o Centro-Oeste tem o menor percentual entre as regiões analisadas, com 8,52%.
Para Léo Mack, a diferença entre as regiões reflete um cenário econômico que pressiona de maneira desigual o orçamento das famílias. “Quando a renda fica mais comprometida e o custo do crédito aumenta, despesas recorrentes passam a disputar espaço no orçamento doméstico. Em regiões onde essa pressão financeira é maior, o impacto tende a aparecer também no pagamento das taxas condominiais. Os dados mostram justamente como esse movimento não ocorre de forma uniforme no país”, afirma.
Valor da taxa está pesando no orçamento
O cenário de inadimplência acompanha o aumento do valor médio da própria taxa condominial. Segundo a base da uCondo, a média nacional chegou a R$ 538 no primeiro semestre de 2026, ante R$ 516 no primeiro semestre de 2025 e R$ 413 no primeiro semestre de 2022. Isso representa uma alta de 30,3% desde o início da série histórica.
“A taxa do condomínio se tornou mais uma conta dentro do orçamento pressionado das famílias. Mas, diferentemente de outras despesas que podem eventualmente ser adiadas, a arrecadação da taxa está diretamente ligada à capacidade do condomínio de se manter em funcionamento. Complica ainda mais o fato de ser uma estrutura compartilhada. Ou seja, mesmo aqueles que conseguem pagar saem prejudicados”, comenta Léo Mack.

O que acontece depois que a dívida surge?
O levantamento da uCondo apresenta uma novidade neste ano: o que ocorreu posteriormente com as dívidas registradas nos condomínios. Considerando o segundo semestre de 2025, quando a inadimplência após 30 dias estava em 11,66%, o monitoramento até julho de 2026 mostra que o percentual caiu para 9,74%, ou seja, parte das dívidas foram pagas; a diferença foi de 1,92 ponto percentual (p.p.). De acordo com os cálculos da uCondo, isso representa uma recuperação posterior de 16,46% dos débitos.
Efeito direto sobre o caixa dos condomínios
A persistência de uma parcela relevante dos débitos interfere diretamente na previsibilidade financeira do condomínio. Despesas como limpeza, manutenção, segurança, consumo de água e energia, contratos terceirizados e serviços obrigatórios continuam existindo independentemente das taxas estarem sendo pagas ou não. “Quando a arrecadação fica abaixo do previsto, o condomínio precisa administrar uma diferença entre o orçamento planejado e o dinheiro efetivamente disponível”, aponta Léo Mack.
É justamente nessa previsibilidade que a tecnologia de gestão pode ajudar. A plataforma da uCondo inclui emissão e segunda via de boletos, lembretes de vencimento, recibos, notificações de inadimplência e possibilidades automáticas de negociação.
Para síndicos e administradoras, o diretor da uCondo ainda sugere identificar rapidamente quem está em atraso com os pagamentos e, ao mesmo tempo, monitorar a capacidade de recuperação desses valores. E para os moradores, ele alerta que atrasos frequentes servem como sinal de que a taxa condominial está ocupando uma parcela do orçamento mensal que é incompatível com os ganhos da família. “Eventualmente, vale procurar um condomínio mais econômico. É melhor do que esperar a dívida se tornar uma bola de neve”, aconselha.
